Terça-feira, Janeiro 25, 2005

Guterres diz que Governo do PS sem maioria estará "fragilizado"



De expressão que queimava a língua, "maioria absoluta" passou a fórmula com mel na boca dos socialistas. António Guterres, o homem que liderou o País entre 1995 e 2002 e os destinos dos socialistas durante uma década, nunca a pediu e nunca a conseguiu. Agora vem não só pedi-la mas dramatizá-la a ponto de dizer que "é vital que das eleições de 20 de Fevereiro saia uma maioria absoluta", único garante da "estabilidade política necessária". Sócrates está assim obrigado a alcançar o que Guterres nunca agarrou.António Guterres quebrou ontem o seu silêncio sobre política nacional para dar uma força ao seu delfim e sucessor. Apareceu lado a lado com Sócrates, no Centro Cultural de Belém, para falar do "Plano tecnológico e futuro da estratégia de Lisboa". Sala cheia e também lá estavam os pesos-pesados António Vitorino, Ferro Rodrigues ou Jorge Coelho. Sócrates lançou a discussão, falando no seu "plano tecnológico" ("não é uma prioridade, é a prioridade") e de como pretende orientar para esta prioridade os dossiês em discussão em Bruxelas, já este ano, como o quarto Quadro Comunitário de Apoio ou a revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Mas logo passou a palavra ao "pai da estratégia de Lisboa" - acertada na presidência portuguesa da União Europeia, em 2000, visando o emprego, coesão e competitividade da Europa -, mas também seu "pai" político.E Guterres foi claro "Portugal vive uma situação complexa, incompatível com instabilidade política", sendo pois "vital para o País que das eleições saia um Governo com maioria absoluta".Isto porque com a economia globalizada e aberta "o problema central da economia portuguesa é a debilidade competitiva", que exige uma resposta, só possível de "aplicar" com as tais condições de estabilidade política. Condições, sublinhou, "totalmente incompatíveis com um Governo minoritário". O equilíbrio das contas públicas, tão falado, "é uma condição para o êxito" mas "não é a questão central". Essa é a competitividade da nossa economia, num mundo globalizado e em que a aposta tem de ser no conhecimento. José Sócrates concordou e prometeu que um Governo seu "não vai olhar para o sítio errado" (crítica à obsessão do défice), antes vai dedicar-se "à economia".Por isso mesmo, é necessário, continuou Guterres, que os eleitores decidam sobre se "vamos ter um Governo do PS fragilizado" ou, ao invés, um Executivo forte e com maioria de deputados na Assembleia da República. É a quimera dos 116 deputados, que Guterres falhou por uma unha (112 em 95 e 115 em 99)."As condições de estabilidade política são neste momento absolutamente cruciais", pois ou o País "muda de campeonato" ou "não terá condições para o salto" que aspira dar. Correndo o risco de entrar num período de "mediocridade económica, perificidade e obscurantismo", semelhante a outros da sua história.Assim, e "com a autoridade moral de quem viveu seis anos com governos minoritários", Guterres assume que a maioria absoluta é agora indispensável e que "nesta altura só o Ps tem condições de a obter". Se não fosse o PS, seria mesmo "preferível que outros tivessem" a tal maioria absoluta, acrescentou.E se, nesta batalha, entre os socialistas há quem apele ao eleitorado mais à esquerda, procurando cativar eleitores do Bloco ou do PC, é para o centro que Guterres prefere voltar-se (será aí que tudo se decide?). Por isso apelou a "muitos que votaram PSD" em 2002 para que reflictam se "querem instabilidade" - um "governo fraco, minoritário ou com base numa coligação heterogénea" - ou antes um Executivo "forte e coeso".Está bem de ver que para quem nunca pedira maioria absoluta, Guterres agora soltou a língua. Aos jornalistas, depois da conferência, admitiu que a "sua experiência" pesou para que agora pense o que pensa. Dia 20 se verá se os portugueses pensam o mesmo.

In: DN Online

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