Terça-feira, Fevereiro 15, 2005

O problema dos "partidecos"

Os pequenos partidos políticos têm razão quando se queixam de serem ignorados pela comunicação social.

Não conheço Manuel Monteiro nem creio que, pelo que sei do PND, fosse partido em quem votasse. Mas quanto à sua queixa, ele é capaz de ter razão.

Estando nos EUA não me apercebo de todo o pormenor da cobertura noticiosa das campanhas eleitorais. Mas do bastante que acompanho verifico a existência, em Portugal, de um fenómeno idêntico ao de muitos outros países e continentes: os partidos que já têm poder têm acesso ao grande público; os que não têm poder não têm acesso consequente.

Os “partidecos”, como uma vez Jonas Savimbi lhes chamou, não são levados a sério, não porque as suas ideias sejam más, mas porque não têm poder e são vistos a priori como vencedores impossíveis.

Pode julgar-se, a um nível pessoal, que as ideias dos “partidecos” não passam de uma colecção de tolices. Mas compete ao eleitorado tomar, ou não, essa decisão. E quando não se noticia suficientemente o ideário dos pequenos partidos, retira-se-lhes a possibilidade de se apresentarem ao grande público e serem referendados em igualdade de oportunidade com os outros.

A comunicação social é o entreposto onde se cruzam todas as vozes dos grandes debates nacionais. Não há debate como o da campanha eleitoral. E esse debate não será empobrecido pela adição de mais vozes. Nesta campanha, há tantas queixas sobre o baixo nível do debate oferecido pelos grandes partidos que até poderia interessar a alguma faixa do eleitorado, premiar um pequeno partido pelas suas boas ideias. Mas mesmo que as boas ideias existam, elas poderão não ser do conhecimento do grande público, por terem sido ignoradas pelos jornalistas.

A natureza dos regimes democráticos requer que seja o eleitorado, e não as elites, a decidir quem vence e quem perde as eleições. Excluir as vozes pequenas do grande debate – ou implicitamente limitar a sua visibilidade – não ajuda o eleitorado a decidir. Uma boa ideia não depende do autor, mas da relevância que a opinião pública lhe reconhece.


Luís Costa Ribas

In: SIC

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